Lúpulo

De modo geral, a cerveja é o resultado da utilização de quatro ingredientes, mas apenas três destes são, digamos assim, essenciais: são eles o grão maltado (de modo geral, malte de cevada), levedura e água. No entanto, uma cerveja feita com apenas esses três ingredientes ficaria exageradamente doce, sem graça e provavelmente jamais se tornaria a quinta bebida mais consumida no mundo – atrás apenas de água, café, chá e leite (nessa ordem ^^). Por conta disso, o mundo cervejeiro se deu conta, ao longo de toda a história da cerveja, de que era necessária a utilização de algum ingrediente que equilibrasse o doce proporcionado pelo malte, e podemos dizer que várias foram as tentativas com ervas, plantas e flores amargas variadas (alecrim, artemísia, aquiléa, urze e gengibre).

Até a Idade Média, as cervejas eram feitas com uma mistura de temperos e ervas que variavam de tempos em tempos e lugar para lugar, cujo nome era “Gruit” (Inclusive, nos Estados Unidos existem algumas festas que celebram a cultura medieval e que servem cervejas fabricadas com Gruit). Mas, voltando ao assunto, podemos afirmar que foi apenas no século XV que a cerveja encontrou seu parceiro ideal. Seu quarto elemento, que se destacou entre todos os já utilizados até então – o lúpulo.

Lúpulos são plantas trepadeiras da família Cannabaceae, conhecida por conter o gênero Cannabis Sativa (salve, salve D2!). Embora da mesma família, não adianta se empolgar muito, pois o lúpulo não possui efeitos entorpecentes (apesar de conter um certo efeito inebriante e até certo ponto relaxante…)! Brincadeiras à parte, é a flor de lúpulo que costuma ser utilizada como ingrediente da cerveja e é a responsável pelo amargor, conservação e boa parte do aroma do líquido sagrado. A imagem dessa flor pode ser encontrada em diversos rótulos de cervejas mais lupuladas, tais como a Dama Hop Lager, por exemplo. Além de rótulos, a flor de lúpulo tem servido de inspiração para tatuagens, joias, entre outros itens que visam atingir o lupulomaníaco (viciados em lúpulos).

De modo geral, quando a pessoa ainda não está acostumada com o paladar de uma cerveja mais lupulada, o amargor desagrada e a pessoa tende a acreditar que não gosta desse tipo de cerveja, o que acaba mudando profundamente com o passar do tempo, até chegar ao ponto em que são justamente as cervejas amargas as que mais agradam, mas segura esse tema, pois ele será aprofundado em outro artigo desse blog ☺

Voltando ao que importa. Existem inúmeras variedades de lúpulo (mais de 100), sendo que em algumas cervejas podemos encontra-los misturados (Green Lab Hip Hops, por exemplo, faz uso de 4 tipos diferentes de lúpulos na mesma receita), enquanto em outras há a utilização de um único tipo de lúpulo (A Hocus Pocus Overdrive é composta apenas pelo lúpulo citra). Quando a receita leva apenas um tipo de lúpulo, utilizamos a expressão “Single Hop”. Assim, seria correto dizer que a Hocus Pocus Overdrive é uma Single Hop de Citra.

Dentre as variedades mencionadas, alguns tipos de lúpulo são mais adequados para contribuir para o amargor da cerveja (p. ex. Galena), enquanto outros para o aroma (p.ex. Saaz e Citra). Há ainda aqueles que são híbridos (p. ex. Centennial e Columbus) e podem contribuir tanto para o amargor quanto para o aroma do nosso pão líquido. Explicações específicas sobre cada tipo diferente de lúpulo, bem como dicas de receitas irão surgir ao longo da vida desse blog!

Além de aroma e amargor, o lúpulo, em razão dos ácidos alfa existentes em sua composição, também possui um efeito bacteriostático/antibiótico, o que permite com que a levedura atue de forma isenta e exclusiva durante a fermentação da cerveja. Inclusive, o estilo mais famoso de cerveja artesanal que existe – o IPA (India Pale Ale) surgiu em um contexto em que a Inglaterra, na época da dominação sobre as Índias, passou a utilizar grande volume de lúpulo em suas receitas, justamente para que a cerveja suportasse o longo trajeto Inglaterra-Índia e pudesse atender os anseios dos soldados britânicos (primeiros hopheads registrados).

Portanto, percebemos que hoje 99,9% das cervejas (com aquela margem de erro do Datafolha) produzidas tem o lúpulo como um de seus ingredientes, o que o coloca basicamente em pé de igualdade com o malte de cevada, a água e a levedura. Na verdade, se em escolas mais tradicionais como as belga e alemã o lúpulo possuía (e de certa forma ainda possui) um papel de coadjuvante, aqui no Brasil e na Escola Americana (sim, acreditamos hoje existir uma escola americana de cerveja) o lúpulo assume o papel de ator principal, existindo inclusive festivais de grande sucesso e que apostam apenas em cervejas lupuladas: o IPA DAY, que acontece em Ribeirão Preto é um dos muitos exemplos.

E você, já está no grupo dos apaixonados por lúpulo, ou ainda prefere cerveja com sabor de tutti-frutti (ou pior, aquela Malzbier!)?

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